quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

stickers no jornal hoje em dia

Com um mês de atraso, descobri essa matéria sobre os stickers de Belo Horizonte que saiu no jornal Hoje em Dia do dia 17 de novembro:

Os stickers ganham as ruas


Mateus Parreiras
REPÓRTER

Os jovens chegam, aos poucos, ao Cine Belas Artes, ao lado da Praça da Liberdade, em Lourdes. Usam tênis simples, calças largas, bonés, cabelos compridos ou tranças "dreadlocks", estilo jamaicano. De dentro das suas mochilas, sacam cartazes com desenhos, pinturas, figuras, adesivos, formas e mensagens em spray. Enquanto conversam e bebem, um deles mistura num recipiente plástico água, amido de milho e soda cáustica. O "grude" é para uma atividade que ganha cada vez mais adeptos entre os jovens. Eles percorrem as ruas na calada da noite para pregar nos muros, paredes, postes e mobiliários urbanos os cartazes "stickers".

Peças de uma arte urbana com mensagens sociais, políticas, poéticas e irônicas, confeccionadas pelos próprios jovens, os stickers ocupam um espaço antes dominado pelos pichadores. Porém, segundo os adeptos, que preferem a denominação "coletivos urbanos", eles não formam gangues nem se desafiam a deixar sua marca em locais perigosos e ousados, como alto de edifícios e guarda-mãos de viadutos.

"A idéia do sticker é justamente fazer um diálogo da rua com a rua pela arte e pela mensagem. Nossa única regra é não colar o poster sobre o de outra pessoa", conta um deles, pseudônimo Culundria, 30 anos.

Na noite de segunda-feira, o HOJE EM DIA acompanhou alguns coletivos urbanos que atuam na capital mineira. A arte dos posters e adesivos, apesar de apreciada por muitos e cada vez mais popular entre jovens e adolescentes da cidade, é proibida, considerada pelo Código de Posturas da prefeitura como publicidade ilegal.

Pela interpretação da lei municipal 8.616, propaganda é qualquer forma de difusão de idéias. A instalação ou manutenção de engenho de divulgação de publicidade em desacordo é sujeita a notificação, sob pena de aplicação de multa.

Por isso, a ação dos jovens costuma ser furtiva. O grupo acompanhado pela reportagem vem de vários bairros da capital, de Contagem, Ibirité, Santa Luzia e outras cidades da Região Metropolitana. O destino é a área central da cidade, onde há maior movimento, o "coração" das cidades. "Nossos trabalhos são manifestações para colaborar com o caos urbano mesmo. Nós nos integramos a ele", define Estandelau, 25 anos.

A primeira intervenção da noite foi no muro de blocos de concreto de um estacionamento da Avenida Bias Fortes. O grupo é rápido. A cola é postada de frente para o muro. Eles retiraram os seus desenhos de cores fortes ou frases em preto e branco de dentro das mochilas e começam a molhar os rolinhos de pintar com o grude. Lambuzam os muros e os papéis e começam o trabalho de colagem. Em pouco tempo, fazem seqüências de desenhos, uns sobre os outros, numa composição imediata e espontânea. Quem cola primeiro vigia depois e vice-versa. Mas a preocupação com a fiscalização não é muito grande.

"Não conheço ninguém que rodou (foi pêgo) por causa de sticker. Uma vez, um guarda me parou e perguntou o que estava fazendo. Disse que estava arrancando o cartaz e ficou por isso mesmo", conta Desali, 25 anos.

Desali e Estandelau estavam entre os grafiteiros que tiveram partes consideradas obscenas dos seus desenhos censuradas pela comunidade do Bairro Cruzeiro, na Região Centro-Sul (nota do blog: a censura levantou um debate). Tarjas foram aplicadas sobre certas partes do corpo. "É uma hipocrisia ver essa censura sobre a arte de rua. Mas nós gostamos de ter provocado essa reação. Culundria Armada teve um sticker censurado depois de fotografado e exposto na capa de uma revista. "Fizeram a foto de uma modelo na frente de um ursinho que produzi com a mensagem: 'masturbe seu urso'. Apagaram a frase, mas se apropriaram do meu ursinho", protesta.

Nas ruas, o trabalho deles é pouco notado e mais tolerado do que as pichações tradicionais. Quando indagadas sobre um sticker todo colorido numa caixa de cabeamento da Rua Ceará, as amigas Eliete Primo e Pulsina Maria Silva, ambas de 56 anos, elogiam a intervenção.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

pichações da bienal são refeitas por coletivo

As pichações do andar vazio da Bienal de São Paulo agora estão sendo refeitas pelo coletivo de artistas "assume vivid astro focus". Elas serão transformadas em uma instalação em neon em exposição numa galeria paulista. Parece que os artistas descolados gostaram da crítica dos pichadores. "Nosso trabalho é um protesto contra apagar aquele símbolo, porque o que eles estão pedindo, de fato, é válido", disse Eli Sudbrack, membro do coletivo, em entrevista. Visitando o site do "assume vivid (...)", dá para ver que eles são mesmo bem mudernos... Resta saber o que os pichadores vão pensar sobre este apoio que estão recebendo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"masturbe seu urso" censurado na revista encontro

Ao ver a capa da última edição da revista Encontro (periódico quinzenal de coluna-social paga e futilidades em geral de Belo Horizonte), tive uma surpresa: quem diria, uma foto do sticker "Masturbe Seu Urso"! Ele tava pregado numa pilastra do viaduto de Santa Tereza junto com vários outros, como a bonequinha das Red Nails que aparece na imagem. Aí o fotógrafo da tal revista achou que a pilastra seria um ótimo cenário para alguns clicks de uma modelo. E os editores gostaram da foto, mas não muito dessa pouca-vergonha, dessa subversão, dessa falta de respeito com a moral e os bons costumes da tradicional família mineira de classe média. Então, qual foi a solução extraordinária que estes gênios da imprensa encontraram para aproveitar a foto mas não agredir seus pobres leitores? Photoshop no ursinho!

Para comparação, tá aí um recorte da capa da célebre revista ao lado de uma foto do sticker original (que na verdade é um lambe).

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

quando os holofotes ofuscam a visão

(este texto é um comentário sobre o post anterior)


A guerra declarada dos pichadores paulistas não surge por acaso. O momento atual da arte de rua é o da institucionalização. Nunca tantos artistas de rua tiveram o espaço que estão tendo em galerias de arte, em museus, em universidades e na mídia. O fenômeno é mundial.

No Brasil este fato é relativamente recente e repentino. Enquanto em países da Europa e nos Estados Unidos o processo se deu de maneira gradativa, por aqui as atenções se voltaram para os muros das cidades de uma hora para outra, justamente porque lá fora eles estavam valorizados. Um pouco daquele velho hábito jeca do brasileiro, que só dá valor para certas coisas quando os gringos estão fazendo o mesmo.

Precisou que acontecesse dos Gêmeos, por exemplo, que grafitam desde os anos 80, fossem convidados nos últimos anos para pintar muros e castelos na gringolândia para só daí conseguirem fazer uma exposição em uma grande galeria por aqui (ou decorarem o cenário do Cansástico e darem entrevista para o Jô Soares).

Assim, de repente, a arte de rua virou moda. E a superexposição de alguns artistas acabou deixando outros de lado. São Paulo já é uma das capitais do grafite há muitos anos, reconhecida entre grafiteiros do mundo inteiro por uma expressão única: a pixação paulista, que possui características bem peculiares.

Mas o que vai para as galerias de arte não é a pixação, uma expressão agressiva e marginal por natureza. O grafite desenvolveu uma estética mais aceitável para os padrões da cultura pop. Porém, a tal superexposição está iludindo e ofuscando a visão de alguns artistas que ficam deslumbrados com o repentino reconhecimento da sua linguagem. Sem pensar muito, aceitam convites inusitados, como grafitar fachadas de bancos ou shopping centers. Querem logo saber a marca da lata de spray que vão ganhar para realizar o trabalho e, claro, de quanto dinheiro vão colocar no bolso. Para quem admira a arte de rua justamente pelo seu caráter transgressor, esta subversão da lógica original pode ser muito incômoda. E, principalmente, se o artista não consegue elaborar um senso crítico sobre o seu próprio trabalho, corre o risco de não valorizá-lo, como gostaria. Pelo contrário, acaba servindo como um simples instrumento de publicidade para quem o está inserindo em espaços institucionais, galerias e muros com curadoria. No fim, cai no lugar comum da mídia de massa: banalizado e descartável.

Por este lado, a crítica dos pichadores é válida. Só que eles precisam entender que o radicalismo exagerado corre o risco de se transformar em ignorância e que o mais importante é o debate que suas ações estão trazendo à tona. É bem possível que eles estejam deslumbrados com a atenção que conseguiram da mídia nos últimos ataques.

Qual o problema de alguém querer viver do seu trabalho? É possível fazer arte que seja comercializada, desde que aquilo que o artista produz com a intenção de vender não comprometa o seu trabalho na rua. Muitos grafiteiros são pichadores e muitos pichadores são grafiteiros. A arte de rua é, como o nome diz, arte da rua. E a rua é de todos.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

pichadores paulistas declaram guerra contra grafite institucional

Depois de atacarem uma faculdade, uma galeria de arte e, neste domingo, o andar vazio da Bienal de São Paulo (como já haviam prometido), pichadores paulistas agora não estão perdoando os grafites feitos sob encomenda ou sob tutela de instituições. Veja a matéria que saiu na Folha de S. Paulo de hoje:

Pichadores agora destroem marcos do grafite em São Paulo

Eles dizem protestar contra "caráter comercial" dos grafiteiros, para quem iniciativa é obra de uma minoria jovem e ressentida

Foram danificados painéis da imigração japonesa na avenida Paulista, em beco na Vila Madalena e no centro da cidade


RUA 24 DE MAIO
Pichador vandaliza desenho produzido por grafiteiros; pichadores contestam caráter comercial dos grafites em SP


LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL
ADRIANO CHOQUE
REPÓRTER-FOTOGRÁFICO

O "pixo" paulistano, famoso pela tipografia pontuda, de difícil decifração, declarou guerra aos grafiteiros e destruiu no último fim de semana três dos mais importantes marcos do grafite da cidade: o imenso painel em homenagem à imigração japonesa, no "buraco" da avenida Paulista; um beco da Vila Madalena; e um painel do Sesc, na rua 24 de maio, centro.

"Viva a Pixação", o símbolo do anarquismo e referências ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche, como "Demasiado Humano" e "Além do Bem e do Mal", foram escritos sobre os trabalhos dos grafiteiros.

"Quisemos protestar contra o caráter comercial e capitalista que tomou conta do grafite", disse um membro do grupo à Folha. Ele também esteve no ataque ao andar vazio da Bienal, domingo, quando cerca de 40 jovens picharam paredes e vidros e trocaram socos e pontapés com seguranças no prédio que foi projetado por Oscar Niemeyer e é tombado pelo patrimônio histórico.


"Atropelo"

Os ataques romperam o acordo que sempre existiu entre pichadores e grafiteiros: o de que um não "atropela" o outro, e vice-versa. "Atropelar", neste caso, significa pintar por cima. "O "pixo" é anarquia, é contestação, é confronto. Estamos em busca do confronto artístico, em contraposição ao conforto da arte decorativa e das galerias", defendeu um.

"Para mim, isso é ressentimento mal resolvido. Coisa de pessoas ignorantes que acabam privando a população pobre do acesso à arte de rua, que está lá, exposta gratuitamente", respondeu um dos mais prestigiados grafiteiros nacionais, que se identifica como "Nunca", 25.

A briga foi ensaiada. No dia 6 de setembro, um grupo de pichadores atacou a Galeria Choque Cultural, uma dentre meia dúzia na cidade de São Paulo que se especializou em trabalhos de grafiteiros.

"O grafite virou mainstream total. É arte domesticada, feita para decorar ambientes que querem se passar por modernos", disse um pichador.

Para ele, os muros de bairros como a Vila Madalena (zona oeste) tornaram-se um show-room a céu aberto das galerias. "Eles grafitam nos muros e os playboys vão às galerias arrematar os trabalhos para levar pras suas casas ou escritórios."
Segundo "Nunca", a ação do último fim de semana é obra de uma minoria, gente muito jovem, que desconhece a história comum de pichadores e grafiteiros. "Eu mesmo comecei como pichador, lá em Itaquera [bairro da zona leste], há 12 ou 13 anos. Sempre houve respeito entre pichadores e grafiteiros. A ignorância é que atrapalha."


Latinhas holandesas

"Nunca" é autor de uma série de grafites sobre índios. Expôs na galeria londrina Tate Modern, com a dupla estrelada da "street art" nacional: Os Gêmeos (nome artístico dos irmãos Otavio e Gustavo Pandolfo, também de São Paulo).
"Nunca" tem trabalhos espalhados por toda a cidade. Vive disso. Saiu de Itaquera e hoje mora no Cambuci (centro). "Mas já pintei muito portão de aço, já fiz muita coisa decorativa", diz.

Este é um problema. "A pichação perdeu seu espaço, porque todo dono de muro ou portão, para evitar o "pixo", acabou contratando um grafiteiro, certo de que assim evitaria nossa ação. E eles se venderam."

Dados da Prefeitura de São Paulo calculam em 5.000 o número de pichadores da cidade, a maioria dos quais vive na periferia. Quem passa pelas imediações da galeria Olido, no centro, pode vê-los trocando "autógrafos" escritos no estilo próprio em papel A4, que são arquivados em pastas.

O preço da pichação já distingue o pichador do grafiteiro. Se os primeiros compram sprays vencidos em lojas de tintas, sempre nacionais, os grandes grafiteiros só trabalham com latinhas importadas. As melhores são da marca Montana, espanholas ou holandesas, de R$ 13 a R$ 20 a unidade. Há trabalhos que usam algumas centenas de latinhas.

"O grafite formou uma panela", afirma pichador

DA REPORTAGEM LOCAL

O pichador F. participou do ataque à Faculdade de Belas Artes, à Bienal e aos painéis dos grafiteiros. Ele defendeu que o chamado "grafite bomb", o ilegal, seja preservado. Abaixo, trechos da entrevista:
"O pichador é marginal. O problema é que o grafite formou uma panela e excluiu todos os demais. O sucesso, inclusive internacional, que o pessoal do grafite obteve subiu à cabeça deles."

"É necessário distinguir arte de decoração. O nosso ataque ao grafite vendido, conformado e comercial não tem nada de pessoal. Estamos apenas reafirmando aquilo que estava na origem mesmo da pichação, ainda nos anos 60: O "pixo" é anarquia e resistência contra todas as formas de poder que encontrar pela frente."
"Nós não temos nada contra o grafite como forma de expressão artística. Por isso, você nunca verá um dos nossos atacando o grafite ilegal, que é o grafite que mantém o espírito marginal."

"Mas isso é completamente diferente dos grafites pintados sob patrocínio da prefeitura ou de empresas. Quem quiser a arte imutável e inatingível, que vá ao museu. O "pixo" reflete a perversidade da metrópole e é perverso com ela." (LC e AC)


"Ataque é coisa de gente ressentida", diz grafiteiro


DA REPORTAGEM LOCAL

"Nunca" atribuiu ao ressentimento os ataques a suas obras, neste fim de semana. Abaixo, trechos da entrevista:
"Foi uma atitude impensada, a desses caras [os pichadores]. Coisa de ignorante. Quando eu comecei a fazer grafite, ainda morava em Itaquera. Eu nunca fiz faculdade. Só estudei em escola pública. Mas não sou ignorante e acho que só é ignorante quem quer. Tem informação à vontade, tem a internet."

"É um absurdo que, em um país com tão poucas oportunidades de acesso à arte, esses caras tenham destruído a possibilidade de um garoto da periferia ver um painel artístico. Eles estão prejudicando a quem? Certamente não é a quem pode comprar arte, viajar e freqüentar museus."

"Isso não é coisa do movimento [dos pichadores] como um todo. É claro que sempre teve pichador que não gosta de grafiteiro, e vice-versa. Mas eu não sou assim. Eu sempre respeitei a pichação até porque comecei como pichador em Itaquera. Depois, fiz trabalho decorativo de portas de aço. Até que cheguei aqui. Foi um longo percurso, sempre dentro do respeito." (LC e AC)

domingo, 19 de outubro de 2008

copiar+colar transforma a cadeia cultural



O que será que Beto Metralha, produtor musical da cena do tecnobrega, em Belém do Pará, tem em comum com Dan Glickman, presidente da Motion Picture Association of America (MPAA), representante dos seis maiores estúdios de Hollywood? Os dois estão no centro da transformação radical que o universo da produção cultural do mundo está passando (cada um de um lado um pouco diferente). E parece até loucura, mas o modelo de negócio do brasileiro é muito mais moderno que o do seu colega americano. O documentário "Good Copy, Bad Copy" mostra como e porquê esta aparente contradição é (e muito) possível.

Você pode baixar o vídeo no Pirate Bay ou assisti-lo no seu próprio site.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

mídia tática na semana da arquitetura



Amanhã, quinta-feira, vai rolar na faculdade de Arquitetura da UFMG a palestra "Mídia Tática: Arte e Expressão na Cidade", dentro da programação da Semana de Arquitetura. Eu e o João Perdigão vamos conversar sobre como o espaço público da cidade, a rua, é um espaço vivo e livre, cheio de possibilidades a serem exploradas: uma delas é o uso do território urbano como mídia. Não é só pela internet, televisão, jornal e afins que a informação e a expressividade podem circular. Que tal usarmos a rua, o nosso habitat natural por excelência (e não apenas um espaço de circulação), como a nossa mídia? Quem vive a rua, de verdade, sabe que do que eu tô falando. Então, aparece lá, dá o seu palpite. Se quiser, pode nos dizer que estamos viajando e que esta conversa não tem nada a ver. Vamos adorar.

Mídia Tática: Arte e Expressão na Cidade
Quinta, 16 de outubro, às 18h.
D.A. da Escola de Arquitetura da UFMG
Rua Paraíba, 697.
Funcionários

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

pichadores atacam a choque cultural


Ontem, conversando com o Mosh, um amigo grafiteiro, fiquei sabendo com muitos dias de atraso que a Choque Cultural, uma badalada galeria de arte de São Paulo, foi invadida por um grupo de 30 pichadores que, em apenas cinco minutos, sacaram seus sprays e picharam paredes e obras expostas. O ataque foi liderado pelo Rafael Augustaitiz, O "Pixobomb", aquele que em julho também atacou a faculdade que estudava no dia da apresentação de seu trabalho de conclusão de curso.

Para quem não sabe, a galeria Choque Cultural é a mais famosa galeria moderninha do Brasil: expõe e vende obras de artistas contemporâneos, muitas vezes ligados ao grafite, como Zezão, Speto e Os Gêmeos. Ela representa um novo momento das artes visuais, que é o reconhecimento institucional da arte de rua, antes considerada "underground". Mas tem gente que acha que esse reconhecimento tem outro nome: domesticação.

Quando escutei o Mosh me contando a história e me perguntando o que eu achava, eu senti, mais uma vez, que tem gente testando os limites da arte ao extremo. Na hora não consegui chegar a conclusão nenhuma, e ainda não cheguei. É muito difícil dizer se o Rafael e os outros pichadores queriam apenas atenção (ao estilo PR Stunt) ou se realmente queriam questionar, com embasamento. Surgiu até um boato de que a própria galeria encomendou o ataque para ganhar ainda mais visibilidade (o que não deve ser verdade, pois os proprietários entraram com representação na polícia contra os pichadores). A única coisa que sei é que polêmica que gera debate é sempre algo positivo.

Se você quiser ler mais sobre o ataque, veja a matéria do Estadão, a mais completa que encontrei.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

kréu krio leva arte de rua ao mercado novo!


No próximo sábado, 30 de agosto, a partir das 11h, será realizada a abertura da Kréu Krio, exposição autônoma temporária de arte urbana, no Mercado Novo, região central de Belo Horizonte. A intenção é aproveitar a atual efervescência artística da cidade e promover uma mostra paralela com trabalhos dos principais artistas e coletivos de arte de rua em atuação. A exposição será formada por dezenas de tapumes de madeira com intervenções dos artistas e ficará aberta ao público do dia 1 a 5 de setembro, com entrada gratuita. Durante a abertura haverá música, bar, projeção de vídeos, performances e outras intervenções.

A idéia não é subversiva, mas complementar. Neste período repleto de exposições de arte urbana pelos requintados espaços e galerias de arte, Kréu Krio é um evento que valoriza as linguagens das ruas e suas diversas variações, independente de suporte: seja grafite, lambe-lambes, sticker, instalações etc. Muitas destas linguagens ainda marginalizadas e distantes da compreensão do cidadão comum e até do público especializado em arte. Um espaço a mais para a criatividade se potencializar e tomar novas proporções, além daquelas ditadas pelo o que já é institucional.

Para ser produzido, o evento não conta com leis de incentivo ou patrocínio. O que o justifica é o desafio prazeroso de expressar e demonstrar o potencial artístico da cidade, de fundamental importância para o seu cotidiano e a sua população. Mas Kréu Krio não se tornará uma amostra, simplesmente. Pode ser entendido como uma repaginada dos movimentos independentes de Belo Horizonte, como Kaza Vazia, Vacas Magras, Rotatória, e porque não Zombie Walk?

A exposição busca o que está à margem e não é enxergado. A cidade está em constante movimento: é volátil. Às vezes, perecível e descartável. As vidas se transformam e renovam-se a cada esquina, em uma velocidade frenética. Será que as pessoas são sensíveis a isso? Como colocar o público em contato com a cidade de maneira mais íntima, poética e estética?

Kréu Krio está longe de se pautar numa arte urbana de nicho, necessariamente. Ainda assim, na busca por um vestígio essencialmente asfáltico e provocante. No suporte, preocupa-se em transpassar da cidade um ser imagético e sensitivo que remeta à sua realidade.

Kréu Krio – Exposição Autônoma Temporária
Abertura: 30/08, das 11h às 18h. Exposição: Dias 1 a 5, das 12h às 18h.
Local: Mercado Novo (Av. Olegário Maciel, 742, 3º andar)
Entrada Gratuita. Informações: (31) 9606.5771

domingo, 24 de agosto de 2008

o controle da internet é necessário?

Depois do post do dia 10 de julho, volto para falar sobre o projeto de lei que pretende criar regras e punições para o uso da internet no Brasil: o que pode ser encarado como louvável e necessário por uns e, por outros, uma forma de censura e de limitação das possibilidades da rede. É que encontrei uma entrevista muito esclarecedora sobre o assunto com o sociólogo-blogueiro Sérgio Amadeu, no Observatório da Imprensa. Sérgio comenta de forma precisa e sensata as questões controversas do projeto. Levando em consideração o contexto político e social brasileiro, ele aponta e pondera os supostos benefícios ou prejuízos que uma lei como essa pode trazer. Para quem é usuário da internet, vale muito a pena ler a entrevista e se interar sobre o projeto.

Leia aqui a entrevista do Sérgio Amadeu, que também tem este blog aqui.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

julgamento: no foco do caos



Já faz um tempo que quero postar esse vídeo aqui. É um clipe do grupo de rap Julgamento, formado por uma galera espalhada por periferias e asfaltos de Belo Horizonte: uma moçada muito bacana. Idéias boas musicadas no melhor estilo. E a animação foi feita pelo ilustrador e grafiteiro Binho Barreto, mineiro radicado em São Paulo. Também gosto muito do trabalho dele.

E o disco do Julgamento está disponível aqui para quem quiser baixar.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

projeto de lei impõe regras absurdas à internet


O Senado Federal aprovou ontem, dia 9 de julho, na surdina e sem levar em consideração o debate público, um projeto de lei que transforma em crimes os atos triviais da cultura da internet. Conhecida como a "lei de cibercrimes", a regulamentação foi criada em 2003 pelo senador tucano Eduardo Azeredo (aquele que recebeu dinheiro não-declarado de Marcos Valério). Se aprovada na Câmara dos Deputados, serão considerados infrações os hábitos há muito já assimilados no universo digital, como o compartilhamento e download de arquivos (MP3, vídeos, imagens etc) e transporte destes arquivos em pen-drive. Transforma em crimes, ainda, atitudes inovadoras de liberdade de informação que a web propõe, como a reprodução em blogs de trechos de textos de outros blogs e de jornais online. E, como se não bastasse, serão crimes os novos processos de criação da cultura digital, como, por exemplo, o remix de músicas e de imagens.

Para controlar tudo isso, os próprios provedores de internet serão os delatores de seus usuários. Terão de fazer o serviço de vigilância, armazenando dados das pessoas por até três anos (quem acessou a rede? qual horário? de qual endereço?). Algo que lembra anos de censura em épocas de regime militar e, como disse o Pedro Doria em seu blog, são próprias de Estado policial e violam a liberdade.

No meio de todas estas restrições, o projeto inclui questões legítimas (ainda que carentes de debates menos retrógrados), como o combate à pedofilia, à disseminação de vírus e à pirataria com fins comerciais. No entanto, incluir regulamentações de vários tipos como estes em único projeto de lei me parece muitíssimo suspeito. É bem possível que os senadores pretendem conquistar a opinião pública com a suposta "nobre" intenção do projeto, camuflando assim os pontos controversos do texto.

Apesar de estar sendo noticiada com certa discrição na mídia tradicional, a aprovação do projeto de lei já está gerando discussão no Brasil e no mundo. O grupo A2K, formado por professores da Fundação Getúlio Vargas, elaborou um parecer sobre o projeto e está acompanhando de perto o trâmite na esfera política. Também já foi publicada uma petição online contra o projeto (clique aqui para assinar), elaborada por outro grupo formado pelos professores André Lemos (UFBA), Sérgio Amadeu da Silveira (Cásper Líbero) e pelo publicitário e analista de mídias socias João Carlos Rebello Caribé, que são alguns dos maiores especialistas brasileiros em web e cultura de redes digitais. Para completar, é claro, outros vários blogueiros estão manifestando sua indignação. Vale dar uma lida nos textos do Pedro Doria, do Sérgio Amadeu , do Catatau e do blog mais lido do mundo, o Boing-Boing.

Acompanhe aqui o trâmite do projeto.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

músicos mineiros inauguram cooperativa

A Cooperativa da Música de Minas realiza sua primeira Assembléia Extraordinária e convida novos músicos a se associarem

Na próxima segunda-feira, dia 30 de junho, será realizada a primeira Assembléia Extraordinária da Cooperativa da Música de Minas (Comum), que nasce com o objetivo de dar suporte, tirar da informalidade e integrar os músicos, produtores e todos os profissionais da cadeia produtiva da música de Minas. O evento será um momento para que as pessoas interessadas possam se filiar e também para apresentação das ações realizadas no seu primeiro semestre de existência. A Assembléia Extraordinária da Comum acontece na Sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes, às 19h.

A Comum foi criada em dezembro do ano passado, com a associação dos primeiros 24 membros-fundadores. Ela propõe uma nova forma de relacionamento comercial no mercado musical de Minas, baseando-se em conceitos como a economia criativa e redes solidárias. Um exemplo disso é a criação de um banco de serviços, que permitirá a troca de serviços e conhecimento entre seus diferentes profissionais. Ou seja, um músico que esteja gravando um disco encontrará na própria cooperativa outros músicos para participar, ou um produtor para o show de lançamento, ou ainda um designer para a capa do disco. Além disso, a Comum oferecerá outros serviços básicos a seus associados como, por exemplo, emissão de nota fiscal - um grande diferencial para músicos que hoje trabalham na informalidade.

Desde que foi fundada, a Comum está em pleno funcionamento e já desenvolveu planos de ação e formou parcerias. Faz parte do Fórum da Música de Minas Gerais, que foi criado com o intuito de estabelecer um diálogo com o poder público de forma a atender as demandas da classe musical. Também elaborou o chamado Programa da Música, que engloba um edital de circulação nacional e um plano de exportação apresentado à Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais.

A criação da Comum é uma consequência inevitável do momento de renovação e de mobilização que vive hoje a cena musical de Minas.

O músico ou qualquer outro profissional ligado à música que quiser se filiar deve preencher a Proposta de Adesão, que estará disponível durante a Assembléia Extraordinária, e pagar o valor de R$ 25 referente à quota-parte. A mensalidade para cooperados é de R$ 10.


(da esquerda para direita, alguns dos membros-fundadores da Comum: a jornalista Ludmila Ribeiro, o músico Makely Ka, a produtora Tatiana Dias, o músico Maurício Ribeiro, o músico Guilherme Castro e as produtoras Lailah Aburachid e Luiza Barcelos)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vandalismo ou arte ou o quê?

Em dias com obras de arte estampando as capas dos jornais (telas de Picasso, Di Cavalcanti e Segall furtadas da Estação Pinacoteca, em São Paulo), uma outra notícia me chamou muito a atenção (quem não estiver com saco para ler a longa matéria da Folha de S. Paulo, dá uma olhada no texto do Blog do Repique e depois vá direto ao meu comentário, lá embaixo):

Pichadores vandalizam escola para discutir conceito de arte

Colegas classificaram ação como terrorismo; coordenadora do curso de Artes Visuais chamou de "ato de vandalismo"

Aluno da Belas Artes convocou grupo para realizar prova de conclusão de curso


LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Cada um dos 37 alunos do último ano do curso de Artes Visuais do Centro Universitário de Belas Artes tinha de apresentar uma obra para garantir sua formatura. Três espaços foram reservados para a exposição dos trabalhos. Trinta e seis alunos preencheram esses espaços com sua produção. Um -Rafael Augustaitiz, 24-, não.

Pichador desde os 13 anos, Rafael resolveu apresentar um trabalho diferente. "Uma intervenção para discutir os limites da arte e o próprio conceito de arte", explicou.
Nos últimos dias, os locais de reunião de pichadores no centro da cidade tornaram-se focos de recrutamento de jovens para "a ação", como se chamou. Às 21h de anteontem, horário de intervalo das aulas, 40 deles, idades entre 15 e 25 anos, compareceram ao "ponto", na estação Vila Mariana do metrô (zona sul).

"Estamos todos muito ansiosos", disse um morador do Ipiranga, que assina suas pichações com o desenho de um monociclo. A maioria dos rapazes nunca pôs os pés em uma faculdade; sua estréia no ensino superior seria justamente em um trabalho de conclusão de curso.

Em cinco minutos andando a pé, o grupo alcançou a escola. Muitos vestiram máscaras improvisadas com camisetas ou daquelas usadas para pintura com compressor. Logo, as latas de spray foram sacadas de dentro dos moletons folgados.

Os jovens pichavam suas "assinaturas" nas paredes, nas salas de aulas, nas escadas, sobre os painéis de avisos, nos corrimãos. Uma funcionária da secretaria, Débora Del Gaudio, 30, quis impedir. Levou um jato de spray no rosto.

Usando a técnica do "pé nas costas", os pichadores formaram escadas humanas (com até três jovens "empilhados"), uma forma de atingir andares superiores da fachada. Assustaram funcionários da escola enquanto escreviam aquelas letras pontudas e de difícil decifração.

Os 30 seguranças da faculdade mobilizaram-se para acabar com a farra. "Deixa eu terminar a minha frase, pô", pediu um jovem. Tomou um soco. Revidou. Virou uma pancadaria.

"Abra os olhos e verá a inevitável marca na história" e muitos símbolos do anarquismo, além das letras pontudas já cobriam o prédio, quando cinco carros da polícia militar chegaram ao local, apenas dez minutos depois de iniciado o ataque.
Enquadrado pela PM, Rafael gritava ao entrar no camburão: "Olha aí, registra, isso é um artista sendo preso."

A maioria dos alunos não achou nada legal "a ação", "a intervenção", "a obra" de Rafael. "Terrorismo. O que aconteceu aqui é terrorismo. Se isso é arte, então o maior artista do mundo é o Osama Bin Laden e o buraco das torres gêmeas é uma obra-prima", disse Alan George de Sousa, 33, do curso de arquitetura e desenho industrial.
"Eu pago R$ 1.500 de mensalidade no curso de arquitetura porque trabalho e minha mãe também dá um duro danado para me manter aqui. Aí vem um filho da mãe dizer que fez essa porcaria toda porque a gente é tudo burguesinho. Ora, vai estudar, se preparar", gritava uma aluna.

Rafael amanheceu o dia de ontem em companhia de mais seis acusados de pichação no 36º Distrito Policial, no Paraíso. Duas estudantes de publicidade da Escola de Propaganda e Marketing, que fica em frente à Belas Artes, estavam lá também, exigindo: "Essa gente tem de se ferrar." As duas acusavam o grupo de pichadores de riscar o Honda Fit cor de champagne que saiu da concessionária "há menos de uma semana".

Ontem à noite, na parte interna da escola, já nem parecia que o aluno com 40 manos tinha estado lá. Tudo estava limpinho. Às 20h30, a turma dos formandos (menos Rafael) ia se reunir para "processar esse trauma", nas palavras da coordenadora do curso de Artes Visuais, a artista plástica Helena Freddi, para quem o que aconteceu na faculdade foi "um ato de vandalismo que extrapolou os limites da ação civilizada."

No texto que escreveu para justificar "a ação", 28 páginas encimadas pelo título "Marchando ao compasso da realidade", Rafael desafia: "Somos abusados? Que se foda! É um orgulho para vocês eu estar dentro dessa podre faculdade. Não sou seu filhote, não preciso do seu aval. A arte hoje em dia é para quem está na pegada. Para os bunda-moles ela morreu faz é tempo." O curso de Artes Visuais tem mensalidade de R$ 900. Rafael é bolsista integral.

Comentário

O ato do Rafael merece, no mínimo, ser refletido. O que o levou a fazer isso e porque chegou a esse ponto? Algum motivo ele tem. Mesmo que seja uma atitude inconsequente e agressiva. Com certeza não foi a tôa.

Para aqueles que se sentiram prejudicados, não tiro suas razões afinal, são SUAS razões. Mas acredito que a atitude do Rafael vem justamente questionar este caráter individualista da sociedade contemporânea. Todo mundo pensando no SEU próprio umbigo. Pensando na SUA casa, na SUA faculdade, na SUA parede, na SUA cultura. O próprio Rafael, inclusive, pensa assim: com a SUA revolta e a SUA insatisfação (que são particulares, embora compartilhada pelos seus colegas pixadores).

Mas ele não se formou ontem pela BA, ele se formou ao longo da vida por uma sociedade extremamente contraditória. Ele não se tornou um "pixador", um "vândalo" ou um "artista" sozinho, pois o Rafael é um sujeito social, como todos.

Não adianta pedir ou mandar ele ir se expressar em "locais públicos" ou ir atrás de políticos. Os políticos são representantes públicos, mas apenas representam: isto não impede o Rafael de querer exercer o direito político de expressão e pensamento por si mesmo. E a faculdade, embora seja uma instituição de capital privado, é um espaço público que serve àqueles que a frequentam como um ambiente de reflexão e debate (serve assim, inclusive, ao Rafael - aluno bolsista, mas aluno como todos os outros) .

Talvez Rafael tenha tido dificuldades, durante toda a sua vida, para levantar os seus questionamentos e o seu pensamento, mas ontem a sua consciência não suportou esta angústia.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

bienal do livro estréia em minas

Quem gosta de livro deve visitar a Bienal do Livro, que tá acontecendo no Expominas, desde hoje até o dia 25. Várias editoras e livrarias montaram estandes com seus livros, alguns com super promoções. E há ainda uma programação interessante, com bate-papos sobre temas ligados à literatura, protagonizados por autores como Rubem Alves, Moacyr Scliar, Ruy Castro, Zuenir Ventura, Sérgio Sant'Anna, Sebastião Nunes, João Adolfo Hansen, Maria Esther Maciel e Affonso Romano Sant'Anna.

E para quem tem filhos, sobrinhos, primos, netos e amiguinhos em geral, essa é uma ótima oportunidade de levá-los para ganhar um presente colorido, divertido e inteligente. Digo isso porque é grande o destaque dado na Bienal para a literatura infantil, com uma variedade enorme de livros para essa faixa etária, além de sessões de teatro e de contadores de histórias.

O ingresso custa R$ 6 e a meia, apenas R$ 3. Crianças com até 1,20m (que critério estranho!) não pagam. O Expominas fica na Avenida Amazonas, nº 6030, próximo ao Cefet e em frente ao Hospital Sara Kubitscheck. A minha dica é ir de ônibus ou metrô, pois só o estacionamento custa R$ 7. Na estação Gameleira do metrô há uma entrada direta para o Expominas e com o bilhete de passagem em mãos o visitante ganha 50% de desconto na entrada. Para saber mais: o site da Bienal.

terça-feira, 22 de abril de 2008

artigo discute interesses de lei de incentivo

Na semana passada, encontrei no jornal Folha de S. Paulo este artigo, que discute a realidade atual da Lei Rouanet, a famosa lei de incentivo à cultura do governo federal, e a sua influência sobre o cenário cultural brasileiro. Apesar de tratar especificamente da lei federal, acredito que o texto ajuda a compreender os interesses que envolvem também as leis de incentivo estaduais e municipais. Disponibilizo aqui o artigo para aqueles que ainda não o leram:

O NEGÓCIO DA CULTURA

A idéia da Lei Rouanet parece boa, mas contém um movimento nefasto: verbas públicas passam a ser regidas pela vontade privada

O DEBATE sobre a extinção da Lei Rouanet tem mobilizado setores importantes da sociedade brasileira. Parte da classe artística, secretários de governo e jornalistas têm assumido o ponto de vista "reformar, sim, acabar, nunca!".

De fato, a Lei Rouanet tem se mostrado uma força miraculosa em seus 17 anos de vida. Basta dizer que mudou a paisagem da avenida Paulista, em São Paulo, ao fazer surgir uma dezena de centros culturais. Curiosamente, instituições com nomes de bancos, que elogiam o espírito abnegado da instituição financeira. Seu nascimento está ligado à caneta do presidente Collor de Mello, em 1991. Tinha, então, um nobre objetivo pré-iluminista: incentivar o mecenato. Só que a aristocracia do passado contratava diversão com recursos do próprio bolso. Já a Lei Rouanet está mais afinada com a cartilha liberal-conservadora de sua época: "O Estado deve intervir o mínimo, a sociedade deve se autogerir, mas, para isso, é preciso uma ajudazinha".

Todo o poder miraculoso da lei tem a ver com seu mecanismo simples: ela autoriza que empresas direcionem valores que seriam pagos como impostos para a produção cultural.

A idéia parece boa, mas contém um movimento nefasto: verbas públicas passam a ser regidas pela vontade privada das corporações, aquelas com lucro suficiente para se valer da renúncia fiscal e investir na área.

Assim, os diretores de marketing dos conglomerados adquirem mais poder de interferir na paisagem cultural do que o próprio ministro da Cultura. E exercem tal poder segundo os critérios do marketing empresarial. O estímulo aos agentes privados resulta em privatismo.

Diante da grandeza do fundo social mobilizado desde 1991 (da ordem de R$ 1 bilhão só no ano de 2007), é possível compreender a gritaria das últimas semanas. Por trás da defesa da Lei Rouanet, há maciços interesses. Não só os das instituições patrocinadoras, que aprenderam a produzir seus eventos culturais, mas os da arte de índole comercial (feita para o agrado fácil), que ganha duas vezes -na produção e na circulação-, na medida em que os ingressos seguem caríssimos.

Os maiores lucros, contudo, ficam com os intermediários. De um lado, as empresas de comunicação, cujos anúncios pagos constituem gigantesca fonte de renda, em média 30% dos orçamentos. De outro, a casta dos "captadores de recursos", gente que embolsou de 10% a 20% do bilhão do ano passado apenas por ter acesso ao cafezinho das diretorias de empresas.

Como não há julgamento da relevância cultural na atribuição dos certificados que habilitam o patrocínio, a lei miraculosa abriu as portas dos nossos teatros às megaproduções internacionais, que ganham mais aqui do que em seus países de origem.

O caso do Cirque du Soleil, com seus R$ 9 milhões de dinheiro público e ingressos a R$ 200, está longe de ser exceção. Ao contrário, é a norma de um sistema em que o Estado se exime de julgar a qualidade em nome do ideal liberal de tratar os agentes desiguais como iguais e "conter o aparelhamento político da cultura".

O pressuposto filosófico do debate foi revelado pelo secretário da Cultura de São Paulo, João Sayad: "Antigamente, numa era religiosa, o natural era a coisa criada por Deus. Hoje, o natural é o que dá lucro".

Ao defender o subsídio contra o mercado excludente, assume a impotência do Estado e endossa a idéia de naturalidade (portanto, imutabilidade) do império do capital sobre qualquer coisa que já se chamou "vida".

Uma reforma da Lei Rouanet incapaz de impedir o controle privado de recursos públicos não faz sentido.

O Estado pode estimular a generosidade humanista dos empresários com renúncia fiscal, mas não pode deixar de regular a distribuição do fundo social com regras claras de concorrência pública. Não parece óbvio? Então, por que não enfrentar o debate sobre valores culturais? Por que contribuir para a universalização da lógica mercantil? O "aparelhamento político da cultura" pode ser questionado em público. O desejo unilateral de um gerente de marketing, não.

Num passado recente, o governo Lula sacrificou seus membros para não enfrentar a tropa de elite da mídia eletrônica. Estava em questão a exigência de "contrapartida social" no patrocínio das estatais.

Sua disposição conciliatória pode, de novo, impedir uma transformação maior, rumo a uma cultura livre, pensada como direito de todos. Mas qualquer mudança exige, no mínimo, considerar a hipótese de que a realidade e o mercado não são uma coisa só.

SÉRGIO DE CARVALHO, 41, é diretor da Companhia do Latão e professor de dramaturgia da USP.
MARCO ANTONIO RODRIGUES, 52, é diretor e um dos fundadores do Folias, companhia teatral.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

música independente no teatro da biblioteca!


Hoje, dia 16, começa o festival de música independente Stereoteca, com a música experimental do Indiada Magneto, pseudônimo de Daniel Saavedra, que também toca na banda PROA, e seus vários convidados. Esta já é a 3ª edição do festival, provando que o projeto já deu mais que certo. Serão 23 shows que vão até outubro, semanalmente (todas as quartas), com uma seleção do que há de melhor na nova cena musical mineira.

E, além de música, o festival também abre espaço para poesia: antes de cada show, um poeta convidado apresenterá sua obra. São nomes como Chico Amaral, Diovvani Mendonça, Makely Ka, Érika Machado, Renegado, Lecy Pereira, Paulo Urban, Paulinho Andrade, Renato Negrão, Ricardo Evangelista, Suely Silva, Vandder Lima, Wanderson Marcelo e Paulo Lacerda. E, apesar da produção do festival ainda não ter divulgado mais detalhes, foi prometido ainda um ciclo de debates e festas temáticas (StereoRap, StereoRock, StereoSamba e StereoBlack). Aguardemos!

PROGRAMAÇÃO

16/Abr - Indiada Magneto (e convidados)
23/Abr - Letícia Coura e Revista do Samba
30/Abr - Julgamento, com abertura do Mente Fria
07/Mai - Tatá Spalla
14/Mai - Wilson Dias
21/Mai - Pat C
28/Mai - Sérgio Pererê
04/Jun - Monno
11/Jun - Dois do Samba
18/Jun - Deco Lima e o combinado
25/Jun - Miguel dos Anjos
02/Jul - Titane
06/Ago - Maísa Moura
13/Ago - Kiko Klaus
20/Ago - Lucas Avelar
27/Ago - Transmissor
03/Set - Dona Maria do Batuque
10/Set - Pablo Castro
17/Set - César Maurício
24/Set - Mariana Nunes
01/Out - Mestre Jonas
08/Out - Affonsinho
15 e 16/Out - Érika Machado

Os shows acontecem no Teatro da Biblioteca Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, sempre às quartas, às 20h30. O preço é até modesto: R$ 6 e R$ 3 (meiaentrada). Mais informações no site, ou pelo telefone (31) 3337-9693.

terça-feira, 25 de março de 2008

abstracionismo espanhol em são paulo

Se estivesse em São Paulo, eu não perderia a exposição do pintor espanhol Pablo Palazuelo, que está na Estação Pinacoteca. Palazuelo é um dos representantes do abstracionismo geométrico. Este estilo de pintura é um dos que mais me interessa e acredito que seja um dos que, esteticamente, mais influenciam as artes visuais contemporâneas, como o graffiti. Bom, ainda tenho até o dia 25 de maio para visitar a exposição.

quinta-feira, 20 de março de 2008

bandas de surfe deixam todo mundo bêbado

Por acaso alguém já fez, algum dia, uma crítica sobre show de banda de surf music de garagem? Não sei. Mas nessa quarta, dia 19, resolvi escrever uma. Rolou na Obra, pelo 8º Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe, os shows dos Reverb All Star, Esquadrão Relâmpago: Monster Surf e os cearenses do Fóssil.

Cheguei na casa pouco mais de meia noite, e os Reverb All Star tinham começado a tocar. No início achei meio fraquinho, aquelas mesmas musiquinhas de sempre, a maioria cover de bandas como The Ventures. Como disse um amigo meu, os caras da banda são como arroz de festa: onde e quando estiver rolando show de surf music, eles estão lá. Mas aí comprei uma cerveja, dei uns goles numa pinga, e o som foi melhorando. Mais cedo ou mais tarde percebi que não dá pra desprezar a voz da experiência. Os caras do Reverb All Stars são velhos de guerra e sabem o que estão tocando. Quando dei por mim, já tava pulando empolgado, acompanhando o som da guitarra. E o público, que tava tímido, também tava começando a se animar.

Mas não durou muito e logo o show acabou. Rolou o intervalo, pra pegar mais uma cerveja, trocar uma idéia com algum conhecido e escutar um som mecânico que ressucitava algum crássico de mil novecentos e lá vai fumaça. Daí um tempo subiram ao palco os caras do Monster Surf. Euforia quase geral, já que metade do publico já é chegada de alguém da banda. Aquele foi um momento glorioso, pois era a primeira vez que eram a segunda banda a se apresentar. Sinceridade? Só rolou tosquera, no bom sentido. Saber tocar bem não é tão importante pra banda quanto se divertir e fazer a galera se divertir. Rolaram moshs e stage dives como sempre rolou nos shows que essa moçada tá acostumada a freqüentar desde que somos moleques. E um desafio foi lançado: queriam ver alguém com os pés no teto, caminhando de cabeça pra baixo. E desafio cumprido: logo tinha algum maluco carregado por outros malucos se divertindo ao máximo.

Depois, e por último, foi a vez dos cearenses do Fóssil. Eu sabia que quem despencou lá de cima do Brasil estava ali pra fazer o melhor que podia. E foi isso mesmo: ao contrário da banda anterior, os caras tocavam super bem. Só não sei se o público da Obra tava preparado e a fim de ouvir, naquele momento, um som elaborado e lento como o deles. A fila para pagar a conta já atravessava o salão (e eu confesso que fazia parte dela). Mas o som dos caras é muito bom e merece respeito. Rock instrumental da melhor qualidade.

Pra fechar a noite, passamos num restaurente que fica aberto até altas horas e comemos arroz com feijão pra espantar a bebedeira.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Educação flagrada em documentário



Não só de filmes como Tropa de Elite ou Cidade de Deus é feito o atual cinema brasileiro. Há também uma ótima safra de documentários, como "Pro Dia Nascer Feliz", do diretor João Jardim. O seu tema é a triste situação da educação no país e a juventude que está (ou deveria estar) estudando. Para abordar o assunto, o diretor utiliza uma sutileza incrível. Está longe de obviedades, como tentar apontar culpados pelos problemas do sistema de ensino, ou objetividades, como números e estatísticas. Pelo contrário, o filme encontra nas falas dos entrevistados (alunos, professores e diretores de escolas) um universo de variáveis, profundas e complexas.

Vale muito procurar "Pro Dia Nascer Feliz" na locadora. Se preferir, também pode baixa-lo aqui, em torrent.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Livro retrata arte de rua de BH

Amanhã, dia 1, é dia de lançamento do livro Na Rua: pós-grafite, moda e vestígios, de Cássia Macieira e Juliana Pontes. Essa é uma das raras publicações sobre a arte de rua de Belo Horizonte. O livro faz um panorama, principalmente através de fotografias, da estetica urbana e do cenário da arte de rua depois da saturação da linguagem do grafite, que predominou na virada do seculo como a grande expressão visual dos centros urbanos do mundo inteiro. O grafite nunca foi a única expressão urbana e nos últimos anos várias outras linguagens estamparam os muros ao redor do globo. Belo Horizonte não ficou fora da tendência e por aqui o sticker, uma espécie de adesivo ou lambe-lambe com imagens e mensagens diversas, teve grande destaque. Um grande exemplo é o Vigia, um adesivo feito pelo artista Xerel Alcantara (e que ilustra o flyer abaixo), que se transformou num ícone das ruas de BH. Numa alusão ao big brother do livro 1984, de George Orwell, o Vigia está discretamente observando os habitantes da cidade pelos cantos de placas e semáforos. Se você mora em Belo Horizonte, talvez já tenha visto um por aí.



Além do grafite e do sticker, o livro passa por varios tipos de texturas e estampas urbanas. As fotografias mostram uma visao bastante apurada de tudo aquilo que compoe o visual da cidade, como azulejos e posteres rasgados, até chegar a um paralelo entre a produção artística e a estetica das ruas com a moda. Uma muito bela coletanea de imagens que, na verdade, estao ao alcance de todos, bem ali na esquina. Para quem se interessou, o coquetel de lançamento começa as 11h e vai até as 14h, na Quixote Livraria e Café, que fica na Rua Fernandes Tourinho, 274, na Savassi. Por enquanto o livro só está sendo vendido lá e custa R$ 59.

Só uma pequena observação: o livro traz também algumas referências aos trabalhos do coletivo Culundria Armada, do qual eu até faço parte, mas que foram erroneamente grafados como de autoria de um tal de "João Perdigão" (alguns pontos a menos para as autoras, que não tiveram o cuidado de apurar direito as informações que estão publicando). E se você ainda não conseguiu entender ainda o que, afinal, é um sticker, dê uma olhada no vídeo (pixelado) abaixo:


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

blogagem coletiva: carnaval!


Depois das férias, Pixelando está de volta de cara nova e com novidades. Além do cabeçalho novo, hoje é dia de estréia da coluna "blogagem coletiva", onde eu e vários outros falarão sobre um mesmo tema no mesmo dia. E o tema de hoje, uma quarta feira triste e chuvosa, é o carnaval.

Para mim, o carnaval nunca significou muito além de um feriado enorme encrustado no começo do ano. É claro que o significado original da festa é bem maior que isso, remete ao Egito antigo e à Roma antiga e foi incorporado mais tarde, talvez na Idade Média, pelo calendário cristão (apesar de uma certa resitência da Igreja Católica) como a última festa antes do período da quaresma. Por isso o carnaval seria um último momento de alegria e prazeres da carne antes das continências que o seguem. Não sei se por esse motivo, a festa se transformou em um momento de delírio e catarse passageiros, uma das poucas oportunidades para o homem comum se libertar parcialmente de muitas regras sociais, relações hierárquicas e tabus que o envolvem.

No Brasil é muito fácil perceber como as festas de carnaval realmente servem como válvulas de escape sociais. O país, atolado em um dos maiores índices de desigualde social do planeta, literalmente para durante o feriado para ver o carnaval passar. As cidades do interior de Minas, por exemplo, se embriagam em alegria gratuita e humor ingênuo. E outras cidades famosas, como o Rio, produzem grandes espetáculos. São manifestações muito bonitas, sem dúvida. Mas, da mesma forma que o carnaval começa, ele também passa. Quem havia se esquecido de que é fodido e mal pago, de repente está de volta à realidade. Alguns dizem que é só nesse momento, depois da quarta feira de cinzas, que o ano começa no Brasil.

Belo Horizonte, a cidade em que vivo, no entanto, não tem tradição carnavalesca. Talvez por isso eu não tenha grandes laços afetivos com o carnaval. O que se vê por aqui no feriado é o êxodo em massa da população, pobre ou rica, para onde quer que seja. Este ano com certeza não será diferente. Aliás, o êxodo já começou. As pessoas já estão de malas prontas para viajar e eu serei um dos poucos que resistirei bravamente ao triste carnaval belorizontino (e o motivo é muito mais a falta de grana do que vontade própria, é claro). Por aqui terei que me virar para preencher o tempo. Uma das poucas opções que tive nos anos passados, o Carnaval Revolução, foi importado para São Paulo. O jeito será escutar muita música, ler um livro e curtir as tranquilas ruas da cidade, que no carnaval ganham um charme que eu gostaria que tivessem o ano inteiro.

(este post, como já disse, faz parte da "blogagem coletiva" combinada com outros blogueiros de BH, com o tema carnaval. Além de mim, o tutumineiro, adorei o bloguete, ora boa, autófago e meio desligado já publicaram seus textos, confere lá!)