Depois de uma intoxicação alimentar que me levou à lona, volto neste post para falar um pouco sobre a peça "
Toda Nudez Será Castigada", da paranaense naturalizada carioca
Armazém Cia. de Teatro, com texto de
Nelson Rodrigues, que esteve em cartaz nesse último fim de semana (dias 7 e 8) em BH. Em breve, falarei um pouco também sobre o documentário
Estamira, de Marcos Prado. O que a peça e o filme têm em comum é o tapa na cara dos valores morais da sociedade.
"Toda Nudez Será Castigada" conta a história do amor pouco convencional entre Herculano - um recém-viúvo que durante toda a vida reprimiu a própria sexualidade - e Geni, uma prostituta que só consegue amar aqueles por quem sente pena. Os dois se conhecem quando Herculano, num porre para afogar a dor da morte de sua mulher, vai até o puteiro e por lá passa três dias e três noites. Até aí não haveria nada de mal no amor entre os dois persongens, se não fosse o conflito extremo entre o mundo da prostituta e a caretice doentia da família de Herculano.
O diretor
Paulo Morais acertou na escolha do cenário fixo, com portas enormes que se abrem ou giram e servem como um elemento orientador na narrativa do espetáculo. Na apresentação em BH, porém, o cara comeu mosca e perdeu alguns pontos ao deixar o volume da sonoplastia e da trilha sonora extremamente alto. O elenco tem alguns destaques, como Patrícia Selonk (Geni), Thales Coutinho (Herculano) e Simone Mazzer (tia gordinha?), que conseguem expressar bem o tom trágico da peça e ainda serem cômicos quando o roteiro exige. Mas há também destaques negativos, como Sérgio Medeiros (Serginho), que não vai muito além do texto decorado e ainda assim ocupa um papel importante.
O roteiro, sem dúvida, é muito bom. Para a época em que foi escrito, o ano de 1965, deve ter sido muito chocante, ridicularizando o tempo todo a tradição, a moral, os bons costumes, o puritanismo. Hoje em dia esses elementos já perderam naturalmente a sua força e as pessoas, ou pelo menos uma boa parte delas, consegue conviver harmoniosamnete com a putaria e a serenidade (isso
para não dizer que o mundo atual é uma putaria completa, um perfeito universo rodriguiano). Mas o texto de Nelson Rodrigues, é claro, sempre tem sua importância, pois questiona até que ponto o código de valores morais é saudável e depois de que ponto se torna algo doentio.
E não sejamos hipócritas:
ainda somos bem moralistas.