quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O Stereosamba de Aline


Aline Calixto, filha de Oxossi, foi a atração da última quarta, 23 de agosto, no projeto Stereoteca. A carioca naturalizada mineira subiu ao palco e nos deu o privilégio de escutar a sua bela voz (forte, mas delicada) cantando belos sambas. A moça tem uma presença de palco incrível e seduziu com facilidade toda a platéia. Acompanhada por Humberto Junqueira (violão de sete cordas), Rudney Carvalho (cavaco), Ricardo Acácio (pandeiro) e Rogério Sam (percussão), ela passou por clássicos de Paulinho da Viola e Clara Nunes, mas também apresentou canções inéditas de novos compositores mineiros, como Rodrigo Santiago e Sandro Borges.

Aline os descobriu durante seu trabalho de pesquisa sobre a cena do samba no interior de Minas – muito rica e tradicional, porém muito mal conhecida. Alguma coisa me diz que essa pesquisa ainda renderá frutos preciosos. E desde já há de se agradecer Aline Calixto por sua iniciativa.

E o palco ainda teve espaço para convidados de honra, como Patrícia Ahmaral. A cantora já é conhecida pelo público mineiro, mas ninguém ainda havia a visto se arriscando na cadência do samba. Para a nossa surpresa, as duas cantaram até sambas compostos por Patrícia. Outro convidado foi Delito, cantor e compositor pernambucano radicado em Brasília. Com músicas carregadas de bom humor, mas paradoxalmente tristes, ele arrancou risadas e aplausos da platéia. No fundo, Delito nos mostrou à sua maneira que a ironia é uma forma nobre de se lidar com a dor. Foi uma das grandes surpresas da noite.

Como não podia ser diferente, em determinado momento do show alguns se levantaram e começaram a acompanhar o samba dançando. Provavelmente muitos outros tiveram a mesma vontade, envolvidos pela alegria da apresentação. Mas não só o samba foi responsável por isso: o cenário inspirado no candomblé e o figurino, criado pela própria mãe da Aline, também ajudaram muito a criar um clima bem confortável. Enfim, o show foi digno de uma grande voz cantando grandes sambas.

(Se você quer saber mais sobre a Aline Calixto, entre no seu balaio-blog, o Sambalaio.)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

a primeira vez que ouvi...

Antes de conhecer Fresh Fruits For Rotten Vegetables eu acreditava na idéia de que não existe nenhum disco em que você goste de todas as músicas. Mito que caiu por terra. Esse é um disco que vai além da música e passa por um caminho muito delicado que é o de misturar política no meio. Quer dizer, delicado para outros, não para os Dead Kennedys. Das coisas todas que sobraram do meu mundo adolescente, com certeza se inclui o sarcasmo anárquico do DK. O som macabro da banda e a ironia extremamente inteligentes das letras do Jello Biafra fizeram muito sentido para mim. (Holiday in Cambodja / Viva Las Vegas / Kill The Poor / Let’s Lynch the Landlord etc.)


Da Lama ao Caos - Guitarra elétrica com tambor, Zumbi com Lampião. Na verdade eu aprendi a gostar do som do Nação Zumbi indo aos seus shows e sentido a energia que eles conseguem passar através da música. A sensação é de ser parte de uma única massa humana, como se você e todas as pessoas ao seu redor fossem uma coisa só, apenas uma multidão no meio de muitos. E é isso mesmo que somos na maior parte do tempo, sem perceber: somos muitos no meio de uma coisa só. (Monólogo ao Pé do Ouvido / A Praieira / A Cidade / Côco Dub etc.)



The Velvet Underground and Nico - Isso aí é música para escutar e arrepiar os cabelinhos do braço. Eu não sei qual é a experiência de outras pessoas com esse disco, mas eu aprendi a escutá-lo sozinho, em casa, me acompanhando pela madrugada (ou no máximo durante um domingo de manhã). Acho que essa é a situação mais adequada. É um disco especial, difícil e profundo. Eu prefiro guardá-lo para momentos únicos, preenchendo vazios. (Sunday Morning / I’m Waiting for the Man / All Tomorrow Parties / The Black Angels Death Song etc.)



Eis o Ôme - Quando conheci esse camarada ainda nem entendia direito qual era sua onda. Eu achava meio engraçadinho aquele samba diferente, mas ia só até aí. Algum tempo depois eu fui escutar de novo e me chamaram muita atenção as músicas que ele fez para a umbanda. Eu que nem sabia a diferença entre umbanda e macumba, achei aquilo tudo muito maluco. Noriel Vilela tinha uma voz muito forte e sua música, com forte influência africana, carregada de devoção, é única. Aos poucos fui aprendendo a achar muita graça daquilo e tudo e, principalmente, a respeitá-lo. (Saravando Xangô / Saudosa Bahia / Cacundê, Cacundá / Je Suis la Marie etc.)

(esse post é uma cópia descarada da idéia da minha amiga Cris Brandão, que escreveu em seu blog como foi a primeira experiência com os seus discos favoritos.)

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

PROA no teatro!


Ontem, dia 01/08, foi a vez da banda PROA (sigla de Punk, Rock, Oldies e Afins) se apresentar no Stereoteca. Daniel Saavedra (guitarra), Danilo Miranda (guitarra), Rodrigo Araújo (baixo), Helbeth Trotta (bateria) e seus dois convidados mandaram bem, mesmo num ambiente completamente diferente daquele que estão acostumados: ao invés de um público de bêbados e histéricos - dançando e pulando - eles tiveram uma platéia bem comportadinha, sentada ordenadamente em suas poltronas de teatro...

Para começo de conversa, foi uma surpresa ver um show de rock instrumental encher um teatro, com direito a fila e tudo mais! Não que isso seja uma novidade em BH, já que essa é a capital mundial da Surf Music. Mas também não vamos tirar o mérito dos caras do PROA, eles têm a sua dose de responsabilidade nisso e eu, que nunca tinha visto um show deles antes, pude conferir o porquê.

Músicas rápidas, divertidas, animadas, criativas. Temas de desenhos animados, filmes e até cover de Roberto Carlos. Sou suspeito para falar, porque sempre me agradou esse tipo de som: uma pitada de hardcore, uma idéia punk e acordes surf. Mas eles foram bem além disso. A começar pelos dois convidados que subiram ao palco e que infelizmente não sei o nome para citar aqui. O primeiro tocando trombone. Não havia como errar. Rock rápido e cru combina perfeitamente com instrumentos de sopro. O resultado foi alguma coisa ska da melhor qualidade. Mas não parou por aí: logo depois subiu outro camarada (Gabriel Guedes?) com, pasmem vocês, um bandolim na mão! Uma cena, no mínimo, curiosa. E deu muito certo também! O cara espinicava as cordas daquele instrumento e acompanhava o som da banda incrivelmente. O diálogo entre guitarra elétrica e bandolim deu muito certo. Claro que teve corda arrebentada no final.

Mas o auge do show, na minha opinião, ainda estava por vir. Quando os dois convidados sairam, o PROA tocou algumas de suas músicas próprias, agora mesclando com os eletronismos. Aí sim, eu vi que eles já são uma banda bem madura, mesmo com apenas dois anos de estrada. As composições eram realmente bem construídas. E para finalizar o show em grande estilo, uma música especial, bem oriental, com direito ao camarada do bandolim tocando uma cítara indiana. Haja criatividade!

Esse foi o lado bom do show. O lado ruim, que mais me incomodou, nem veio do palco, mas sim do fato de estarmos ali, num teatro convencional, sentadinhos em cadeiras acolchoadas, escutando um show de rock!!! Onde estava a cerveja??? Ah!! Isso foi realmente bizarro e os caras da banda também sentiram a estranheza da situação, como já disse no início. Mesmo assim eles mandaram muito bem.

O som do PROA tem exatamente aquilo que eu acho que é fundamental para a música, aquele elemento que transforma tudo: irreverência, ironia, bom humor! Já escutei algumas pessoas questionando porque a música mineira não emplaca. Uma das causas, na minha opinião, é uma certa falta de transgressão, sabia? Acho que a música daqui ainda é bem caretinha. Mas o PROA é bem transgressor e essa sua qualidade está na sua música irreverente.

E perdoemos aqueles que disseram que surf music é monótona: eles não sabem o que dizem!

(crédito da fotografia: Fernando Libânio)