
A guerra declarada dos pichadores paulistas não surge por acaso. O momento atual da arte de rua é o da institucionalização. Nunca tantos artistas de rua tiveram o espaço que estão tendo em galerias de arte, em museus, em universidades e na mídia. O fenômeno é mundial.
No Brasil este fato é relativamente recente e repentino. Enquanto em países da Europa e nos Estados Unidos o processo se deu de maneira gradativa, por aqui as atenções se voltaram para os muros das cidades de uma hora para outra, justamente porque lá fora eles estavam valorizados. Um pouco daquele velho hábito jeca do brasileiro, que só dá valor para certas coisas quando os gringos estão fazendo o mesmo.
Precisou que acontecesse dos Gêmeos, por exemplo, que grafitam desde os anos 80, fossem convidados nos últimos anos para pintar muros e castelos na gringolândia para só daí conseguirem fazer uma exposição em uma grande galeria por aqui (ou decorarem o cenário do Cansástico e darem entrevista para o Jô Soares).
Assim, de repente, a arte de rua virou moda. E a superexposição de alguns artistas acabou deixando outros de lado. São Paulo já é uma das capitais do grafite há muitos anos, reconhecida entre grafiteiros do mundo inteiro por uma expressão única: a pixação paulista, que possui características bem peculiares.
Mas o que vai para as galerias de arte não é a pixação, uma expressão agressiva e marginal por natureza. O grafite desenvolveu uma estética mais aceitável para os padrões da cultura pop. Porém, a tal superexposição está iludindo e ofuscando a visão de alguns artistas que ficam deslumbrados com o repentino reconhecimento da sua linguagem. Sem pensar muito, aceitam convites inusitados, como grafitar fachadas de bancos ou shopping centers. Querem logo saber a marca da lata de spray que vão ganhar para realizar o trabalho e, claro, de quanto dinheiro vão colocar no bolso. Para quem admira a arte de rua justamente pelo seu caráter transgressor, esta subversão da lógica original pode ser muito incômoda. E, principalmente, se o artista não consegue elaborar um senso crítico sobre o seu próprio trabalho, corre o risco de não valorizá-lo, como gostaria. Pelo contrário, acaba servindo como um simples instrumento de publicidade para quem o está inserindo em espaços institucionais, galerias e muros com curadoria. No fim, cai no lugar comum da mídia de massa: banalizado e descartável.
Por este lado, a crítica dos pichadores é válida. Só que eles precisam entender que o radicalismo exagerado corre o risco de se transformar em ignorância e que o mais importante é o debate que suas ações estão trazendo à tona. É bem possível que eles estejam deslumbrados com a atenção que conseguiram da mídia nos últimos ataques.
Qual o problema de alguém querer viver do seu trabalho? É possível fazer arte que seja comercializada, desde que aquilo que o artista produz com a intenção de vender não comprometa o seu trabalho na rua. Muitos grafiteiros são pichadores e muitos pichadores são grafiteiros. A arte de rua é, como o nome diz, arte da rua. E a rua é de todos.
5 comentários:
é, realmente muita treta!
mas concordo com o que o marginal disse agora há pouco. isso tudo é sintomático, é transformação.
o que os pixadores tão fazendo lá em sampa é uma manifestação corajosa de uma idéia. corajosa não no sentido de ser algo necessariamento bom, mas no sentido de que os caras estão dando a cara à tapa por uma parada que eles acreditam - e pelo visto eles acreditam que grafite/pixo e dinheiro não devem se misturar.
valorizo o que eles estão fazendo por um motivo principalmente: eles estão gerando pensamento, reflexão e diálogo (o que está realmente "para além do bem e do mal", como dizem as frases de Niezstche pixadas por eles). a ação deles mexe diretamente com o ego de muita gente aqui, o meu inclusive, pois põe em xeque a idéia de "viver de arte" que é o sonho, ou até mesmo a realidade, de muitos grafiteiros hoje em dia. se eles não fizessem isso que estão fazendo a discussão não sairia do banal, do raso, pois não haveria conflito - e o conflito é importante para o pensamento. só depois de termos sido afetados diretamente em nossos egos e sairmos da posição confortável de espectador da parada toda é que vêmos quem somos nós realmente, nossa verdadeira opinião. os caras estão incomodando e é quando nos sentimos incomodados que nos coçamos para mudar de situação (lembram da mosca na sopa do Raul?).
novamente eu reforço: o diálogo nessas horas é fundamental. os caras em sampa geraram o conflito, criaram o incômodo, temos que tirar a lição disso tudo. discutir, abrir mão, se abrir para outras opiniões e outras possibilidades. nem tudo que acreditamos deve prevalecer e a construção de uma nova realidade exige desapego e sabedoria. afinal, a grana é importante? viver de arte é viver de freelas, de eventos, galerias e patrocínios, ou é outra coisa? existem alternativas ao mercado da arte? e até mesmo, o que é esse tal mercado da arte e como estamos inseridos (ou pretendemos estar) nele? qual é a atuação política de um artista de rua? quem bate de frente? quem entra no jogo? quem se vende?
muitas outras perguntas podem ser feitas, mas sugiro que a gente comece devagar. vamos discutir esse lance dos caras em sampa. o que vocês acham disso tudo? acho que essa parada toda, e outras que rolam e vão rolar, ainda vão refletir muito no pensamento sobre a arte do nosso tempo, por isso vamos evitar cair em posições simplistas e maniqueístas - essa discussão é muito atual e muito importante.
comum tem bons pontos. querendo ou não, todo mundo tá falando de pixação e grafite por causa das ações. no mínimo, os broncos q já partem do princípio q pixador é ignorante estão sendo confrontados de algum jeito. e não é sempre que se discute nos jornais o que é arte e o que não é. só por isso já tá valendo.
eu acho que o dereco precisa fazer um blog também.
AHHHHHHHHHHHHHHHHH LUIZZZZZZZZZZ!!!!!!!!!!!!!!!!!
curti o texto, jovem loise! continuo achando uma puta pretensão querer controlar o artista ou o caminho que a arte toma, mas acho muito válido colocar a discussão em pauta. esse assunto reeende..
beijo grande pra vc
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