quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

o som do lixo plagiado


Logo no dia do lançamento de seu primeiro disco, teatro lotado. Assim foi com a banda Graveola e o Lixo Polifônico, que na semana passada se apresentou no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. Marcado por devaneios conceituais às vezes debochados, às vezes líricos, o som da banda é costurado por referências das mais diversas. E estas referências são misturadas, copiadas e coladas sem o menor pudor, num liquidificador musical bem ao estilo da "era do fim do compositor autoral".

Nesta entrevista, Marcelo Podestá e José Luís falam sobre este processo criativo da banda, em que até aquilo que pode ser considerado lixo é reaproveitado musicalmente. Eles contam como surgiu a banda (quase sem querer) e explicam por que, ainda estreiantes, já estão conseguindo esgotar os ingressos de seus shows.

Pixelando: Pessoal, como surgiu a banda, ou a ideia de formar uma banda?


José Luís: Bom, a ideia começou quando três coleguinhas de universidade resolveram se arriscar em rodinhas de violão despretensiosas, regadas a vinhos baratos, cachaças e afins, por volta de 2004...

Pixelando: Assim, quase sem querer então...

José Luís:
Quase e não quase... Marcelo era um amigo de infância que reencontrei nos corredores da Fafich (Faculdade de Ciências Humanas da UFMG). Já arriscamos compor desde pequenos. Daí, já na Fafich, ele me apresentou o Luiz.
Marcelo: No bosque da música.
José Luís: Isso... Lá deve ter sido nosso primeiro encontro musical, se eu não me engano, num aniversário do Marcelo. Desde então os encontros começaram a se tornar frequentes. Tocar era sempre uma desculpa para uma cervejinha, ou vice-versa, hehehe. Com o tempo as canções próprias emergiram...

Pixelando: Bem informal, né? Vocês também não são músicos por formação?

José Luís: Não... O Luiz era o mais musicalizado, podemos dizer. Eu e Marcelo vivíamos um oba-oba musical. Se não me engano, nossa primeira música foi Improvisazé. E coincidiu com a entrada da Flora, irmã do Luiz, na banda. Na verdade ainda não éramos banda, e passamos a ser com a entrada da garota.
Marcelo: Aí sim virou uma banda mesmo.
José Luís: Lembro-me de um encontro em Entre Rios de Minas, cidade onde a mãe do Luiz e da Flora morava. Fizemos nossa primeira apresentação lá... Na abertura do Centro Cultural Maria Helena Andrés.
Marcelo: Uma viagem! Logo depois do Arthur, do Uakti, se apresentar. Um monte de marinheiros de primeira...

Pixelando: E como foi essa primeira apresentação?

José Luís: Tocamos dois covers e uma nossa. Os covers eram Milagreiro, do Djavan, e Meia Lua Inteira, do Carlinhos Brown. Tudo acústico, no "amplification".
Marcelo: Pessoal escutando atento... A gente meio nervoso. Mas rolou e foi bem massa... Já deu um gás para continuar. Acho que depois disso ficamos mais cara-de-pau para apresentar.

Pixelando: E porque um nome tão maluco? Graveola e o Lixo Polifônico?

Marcelo: Graveola é a sonoridade. E também os sentidos que dá pra tirar... Grave... Ola... Parece vitrola. Alguma coisa de som. E o lixo polifônico era um lixo real que eu usava para acompanhar o Luiz no violão, e que fazia vários sons. Aí isso caiu como uma luva na própria estética e modus operandi da banda. O lixo... Matéria para compor, criar... Material com potencial de ser reutilizado. Daí vêm os sertanejos do início da banda... O axé... Os plágios...

Pixelando: Pois é, vocês têm várias referências diferentes. Quais são as principais?

José Luís: De Tom Zé a Arrigo Barnabé... Caetano Veloso, Sérgio Sampaio. Novos baianos. Só Pra Contrariar. Pitadas de Cauby Peixoto. Os lúdicos Mamonas Assassinas, Mutantes, Balão mágico.

Pixelando: Alguma coisa contemporânea?

Marcelo: A safra pós Bossa Nova... Do Amor... Jonas Sá, Rômulo Froés. Moreno Veloso.
José Luís: Sugamos um pouco de Lira Paulistana. Itamar Assumpção, Luiz Tatit, Rumo... Jards Macalé. E por aí vai...

Pixelando: E afinal de contas, o que é esse tal de "plágio estilístico"? Tem alguma coisa a ver com a cultura do copyleft?

Marcelo: Também. É quase uma metodologia. Já viu " a estética do plágio" do Tom Zé? É uma divagação dele no Jogos de Armar... Tem no site também. "Acabou a era do compositor autoral". Talvez tem a ver com a ideia de que nada se cria... Mas a ideia é procurar no que existe, no que nos bombardeia (na grande mídia), no lixo que sobra do que foi usado, sugado, descartado... Aquilo que tem potencial comunicativo, musical, emotivo... Ao deixar estas coisas entrarem, a nossa musica se compõem de fragmentos... Quase uma nova linguagem (para forçar a barra). Feita de pedaços de coisas que compõem nosso universo. O copyleft entra nessa quase que naturalmente...

Pixelando: Isso seria a "lixofonia"?

Marcelo: Acho que sim... A lixofonia é também a nossa verborragia. A carga de barulhos e ruídos que acompanham o som... Ou o próprio som. O som do lixo.

Pixelando: O Graveola é formado por cinco homens e uma menina. Mas parece que não é só isso, né? Tem mais gente por trás, ajudando na produção sonora e executiva. Tem também os vídeos que acompanham algumas músicas no show, a arte do CD que ficou bem bonito e etc. O Graveola é uma espécie de coletivo?

Marcelo: É uma espécie de família/coletivo. Aconteceu e acontece de pessoas muito bacanas se juntarem em favor dessa ideia. E ainda sem retribuição financeira, por enquanto!

Pixelando: É mesmo! Vocês gravaram o disco no esquema de lei de incentivo... Como foi esse processo?

Marcelo: Fizemos o projeto no final de 2007, se não me engano... Nos juntamos, concebemos e escrevemos. Era um projeto para gravação, criação de website, prensagem e show de lançamento.

Pixelando: Foi difícil aprovar, conseguir um patrocinador e captar recursos?

Marcelo:
Era do Fundo de Cultura (da Prefeitura de Belo Horizonte)... Não tem captação. Fomos aprovados e já rolou a grana.

Pixelando: No dia do lançamento do disco, o teatro estava lotado, coisa um tanto rara de se ver em Belo Horizonte. Os últimos shows antes, no projeto Música Independente, por exemplo, também esgotaram a bilheteria alguns dias antes. Porque será? Qual é o segredo do Graveola?

Marcelo: O Música Independente tava lotado também... Gente de fora e tudo mais.
José Luís: Primeiramente, conhecemos muita gente...
Marcelo: E internet, Myspace. Tinham mais de 500 plays no dia antes do show. Flickr. E o site agora... Tá dando bons acessos.
José Luís: O Marcelo tem razão. Muita coisa é feita via internet. Mas a atenção dos blogs é recente... E aí rolam esses meios de divulgação, e-mail também... que ajudam pra caralho.
Marcelo: Fizemos pouca divulgação física nesse show. Boca a boca e Internet. Ah, também contratamos um carro de som, fizemos uma vinheta para tocar na rua chamando para o show. Mas já tinha muita gente na espera que não tinha conseguido entrar no outro... Ficamos muito tempo sem fazer um só show.
José Luís: Esse também é um fator importante: não tocávamos com muita frequência. Os shows são sempre marcados por uma carga afetiva muito grande. Devido a essa "raridade". A pré produção de cada show é uma loucura. Às vezes ficávamos um mês sem ensaiar, encontrávamos duas semanas antes do show e fazíamos ensaios de quatro horas todos os dias. Esse último foi mais ou menos assim... E as coisas, me perdoe o clichê, são feitas com amor, heheheheh!

Pixelando: Isso é um grande diferencial!


José Luís:
Amor e ódio.

Para quem quiser baixar o disco novo e primeiro do Graveola e o Lixo Polifônico, é só acessar o site da banda.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

stickers no jornal hoje em dia

Com um mês de atraso, descobri essa matéria sobre os stickers de Belo Horizonte que saiu no jornal Hoje em Dia do dia 17 de novembro:

Os stickers ganham as ruas


Mateus Parreiras
REPÓRTER

Os jovens chegam, aos poucos, ao Cine Belas Artes, ao lado da Praça da Liberdade, em Lourdes. Usam tênis simples, calças largas, bonés, cabelos compridos ou tranças "dreadlocks", estilo jamaicano. De dentro das suas mochilas, sacam cartazes com desenhos, pinturas, figuras, adesivos, formas e mensagens em spray. Enquanto conversam e bebem, um deles mistura num recipiente plástico água, amido de milho e soda cáustica. O "grude" é para uma atividade que ganha cada vez mais adeptos entre os jovens. Eles percorrem as ruas na calada da noite para pregar nos muros, paredes, postes e mobiliários urbanos os cartazes "stickers".

Peças de uma arte urbana com mensagens sociais, políticas, poéticas e irônicas, confeccionadas pelos próprios jovens, os stickers ocupam um espaço antes dominado pelos pichadores. Porém, segundo os adeptos, que preferem a denominação "coletivos urbanos", eles não formam gangues nem se desafiam a deixar sua marca em locais perigosos e ousados, como alto de edifícios e guarda-mãos de viadutos.

"A idéia do sticker é justamente fazer um diálogo da rua com a rua pela arte e pela mensagem. Nossa única regra é não colar o poster sobre o de outra pessoa", conta um deles, pseudônimo Culundria, 30 anos.

Na noite de segunda-feira, o HOJE EM DIA acompanhou alguns coletivos urbanos que atuam na capital mineira. A arte dos posters e adesivos, apesar de apreciada por muitos e cada vez mais popular entre jovens e adolescentes da cidade, é proibida, considerada pelo Código de Posturas da prefeitura como publicidade ilegal.

Pela interpretação da lei municipal 8.616, propaganda é qualquer forma de difusão de idéias. A instalação ou manutenção de engenho de divulgação de publicidade em desacordo é sujeita a notificação, sob pena de aplicação de multa.

Por isso, a ação dos jovens costuma ser furtiva. O grupo acompanhado pela reportagem vem de vários bairros da capital, de Contagem, Ibirité, Santa Luzia e outras cidades da Região Metropolitana. O destino é a área central da cidade, onde há maior movimento, o "coração" das cidades. "Nossos trabalhos são manifestações para colaborar com o caos urbano mesmo. Nós nos integramos a ele", define Estandelau, 25 anos.

A primeira intervenção da noite foi no muro de blocos de concreto de um estacionamento da Avenida Bias Fortes. O grupo é rápido. A cola é postada de frente para o muro. Eles retiraram os seus desenhos de cores fortes ou frases em preto e branco de dentro das mochilas e começam a molhar os rolinhos de pintar com o grude. Lambuzam os muros e os papéis e começam o trabalho de colagem. Em pouco tempo, fazem seqüências de desenhos, uns sobre os outros, numa composição imediata e espontânea. Quem cola primeiro vigia depois e vice-versa. Mas a preocupação com a fiscalização não é muito grande.

"Não conheço ninguém que rodou (foi pêgo) por causa de sticker. Uma vez, um guarda me parou e perguntou o que estava fazendo. Disse que estava arrancando o cartaz e ficou por isso mesmo", conta Desali, 25 anos.

Desali e Estandelau estavam entre os grafiteiros que tiveram partes consideradas obscenas dos seus desenhos censuradas pela comunidade do Bairro Cruzeiro, na Região Centro-Sul (nota do blog: a censura levantou um debate). Tarjas foram aplicadas sobre certas partes do corpo. "É uma hipocrisia ver essa censura sobre a arte de rua. Mas nós gostamos de ter provocado essa reação. Culundria Armada teve um sticker censurado depois de fotografado e exposto na capa de uma revista. "Fizeram a foto de uma modelo na frente de um ursinho que produzi com a mensagem: 'masturbe seu urso'. Apagaram a frase, mas se apropriaram do meu ursinho", protesta.

Nas ruas, o trabalho deles é pouco notado e mais tolerado do que as pichações tradicionais. Quando indagadas sobre um sticker todo colorido numa caixa de cabeamento da Rua Ceará, as amigas Eliete Primo e Pulsina Maria Silva, ambas de 56 anos, elogiam a intervenção.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

pichações da bienal são refeitas por coletivo

As pichações do andar vazio da Bienal de São Paulo agora estão sendo refeitas pelo coletivo de artistas "assume vivid astro focus". Elas serão transformadas em uma instalação em neon em exposição numa galeria paulista. Parece que os artistas descolados gostaram da crítica dos pichadores. "Nosso trabalho é um protesto contra apagar aquele símbolo, porque o que eles estão pedindo, de fato, é válido", disse Eli Sudbrack, membro do coletivo, em entrevista. Visitando o site do "assume vivid (...)", dá para ver que eles são mesmo bem mudernos... Resta saber o que os pichadores vão pensar sobre este apoio que estão recebendo.