quarta-feira, 29 de outubro de 2008

quando os holofotes ofuscam a visão

(este texto é um comentário sobre o post anterior)


A guerra declarada dos pichadores paulistas não surge por acaso. O momento atual da arte de rua é o da institucionalização. Nunca tantos artistas de rua tiveram o espaço que estão tendo em galerias de arte, em museus, em universidades e na mídia. O fenômeno é mundial.

No Brasil este fato é relativamente recente e repentino. Enquanto em países da Europa e nos Estados Unidos o processo se deu de maneira gradativa, por aqui as atenções se voltaram para os muros das cidades de uma hora para outra, justamente porque lá fora eles estavam valorizados. Um pouco daquele velho hábito jeca do brasileiro, que só dá valor para certas coisas quando os gringos estão fazendo o mesmo.

Precisou que acontecesse dos Gêmeos, por exemplo, que grafitam desde os anos 80, fossem convidados nos últimos anos para pintar muros e castelos na gringolândia para só daí conseguirem fazer uma exposição em uma grande galeria por aqui (ou decorarem o cenário do Cansástico e darem entrevista para o Jô Soares).

Assim, de repente, a arte de rua virou moda. E a superexposição de alguns artistas acabou deixando outros de lado. São Paulo já é uma das capitais do grafite há muitos anos, reconhecida entre grafiteiros do mundo inteiro por uma expressão única: a pixação paulista, que possui características bem peculiares.

Mas o que vai para as galerias de arte não é a pixação, uma expressão agressiva e marginal por natureza. O grafite desenvolveu uma estética mais aceitável para os padrões da cultura pop. Porém, a tal superexposição está iludindo e ofuscando a visão de alguns artistas que ficam deslumbrados com o repentino reconhecimento da sua linguagem. Sem pensar muito, aceitam convites inusitados, como grafitar fachadas de bancos ou shopping centers. Querem logo saber a marca da lata de spray que vão ganhar para realizar o trabalho e, claro, de quanto dinheiro vão colocar no bolso. Para quem admira a arte de rua justamente pelo seu caráter transgressor, esta subversão da lógica original pode ser muito incômoda. E, principalmente, se o artista não consegue elaborar um senso crítico sobre o seu próprio trabalho, corre o risco de não valorizá-lo, como gostaria. Pelo contrário, acaba servindo como um simples instrumento de publicidade para quem o está inserindo em espaços institucionais, galerias e muros com curadoria. No fim, cai no lugar comum da mídia de massa: banalizado e descartável.

Por este lado, a crítica dos pichadores é válida. Só que eles precisam entender que o radicalismo exagerado corre o risco de se transformar em ignorância e que o mais importante é o debate que suas ações estão trazendo à tona. É bem possível que eles estejam deslumbrados com a atenção que conseguiram da mídia nos últimos ataques.

Qual o problema de alguém querer viver do seu trabalho? É possível fazer arte que seja comercializada, desde que aquilo que o artista produz com a intenção de vender não comprometa o seu trabalho na rua. Muitos grafiteiros são pichadores e muitos pichadores são grafiteiros. A arte de rua é, como o nome diz, arte da rua. E a rua é de todos.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

pichadores paulistas declaram guerra contra grafite institucional

Depois de atacarem uma faculdade, uma galeria de arte e, neste domingo, o andar vazio da Bienal de São Paulo (como já haviam prometido), pichadores paulistas agora não estão perdoando os grafites feitos sob encomenda ou sob tutela de instituições. Veja a matéria que saiu na Folha de S. Paulo de hoje:

Pichadores agora destroem marcos do grafite em São Paulo

Eles dizem protestar contra "caráter comercial" dos grafiteiros, para quem iniciativa é obra de uma minoria jovem e ressentida

Foram danificados painéis da imigração japonesa na avenida Paulista, em beco na Vila Madalena e no centro da cidade


RUA 24 DE MAIO
Pichador vandaliza desenho produzido por grafiteiros; pichadores contestam caráter comercial dos grafites em SP


LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL
ADRIANO CHOQUE
REPÓRTER-FOTOGRÁFICO

O "pixo" paulistano, famoso pela tipografia pontuda, de difícil decifração, declarou guerra aos grafiteiros e destruiu no último fim de semana três dos mais importantes marcos do grafite da cidade: o imenso painel em homenagem à imigração japonesa, no "buraco" da avenida Paulista; um beco da Vila Madalena; e um painel do Sesc, na rua 24 de maio, centro.

"Viva a Pixação", o símbolo do anarquismo e referências ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche, como "Demasiado Humano" e "Além do Bem e do Mal", foram escritos sobre os trabalhos dos grafiteiros.

"Quisemos protestar contra o caráter comercial e capitalista que tomou conta do grafite", disse um membro do grupo à Folha. Ele também esteve no ataque ao andar vazio da Bienal, domingo, quando cerca de 40 jovens picharam paredes e vidros e trocaram socos e pontapés com seguranças no prédio que foi projetado por Oscar Niemeyer e é tombado pelo patrimônio histórico.


"Atropelo"

Os ataques romperam o acordo que sempre existiu entre pichadores e grafiteiros: o de que um não "atropela" o outro, e vice-versa. "Atropelar", neste caso, significa pintar por cima. "O "pixo" é anarquia, é contestação, é confronto. Estamos em busca do confronto artístico, em contraposição ao conforto da arte decorativa e das galerias", defendeu um.

"Para mim, isso é ressentimento mal resolvido. Coisa de pessoas ignorantes que acabam privando a população pobre do acesso à arte de rua, que está lá, exposta gratuitamente", respondeu um dos mais prestigiados grafiteiros nacionais, que se identifica como "Nunca", 25.

A briga foi ensaiada. No dia 6 de setembro, um grupo de pichadores atacou a Galeria Choque Cultural, uma dentre meia dúzia na cidade de São Paulo que se especializou em trabalhos de grafiteiros.

"O grafite virou mainstream total. É arte domesticada, feita para decorar ambientes que querem se passar por modernos", disse um pichador.

Para ele, os muros de bairros como a Vila Madalena (zona oeste) tornaram-se um show-room a céu aberto das galerias. "Eles grafitam nos muros e os playboys vão às galerias arrematar os trabalhos para levar pras suas casas ou escritórios."
Segundo "Nunca", a ação do último fim de semana é obra de uma minoria, gente muito jovem, que desconhece a história comum de pichadores e grafiteiros. "Eu mesmo comecei como pichador, lá em Itaquera [bairro da zona leste], há 12 ou 13 anos. Sempre houve respeito entre pichadores e grafiteiros. A ignorância é que atrapalha."


Latinhas holandesas

"Nunca" é autor de uma série de grafites sobre índios. Expôs na galeria londrina Tate Modern, com a dupla estrelada da "street art" nacional: Os Gêmeos (nome artístico dos irmãos Otavio e Gustavo Pandolfo, também de São Paulo).
"Nunca" tem trabalhos espalhados por toda a cidade. Vive disso. Saiu de Itaquera e hoje mora no Cambuci (centro). "Mas já pintei muito portão de aço, já fiz muita coisa decorativa", diz.

Este é um problema. "A pichação perdeu seu espaço, porque todo dono de muro ou portão, para evitar o "pixo", acabou contratando um grafiteiro, certo de que assim evitaria nossa ação. E eles se venderam."

Dados da Prefeitura de São Paulo calculam em 5.000 o número de pichadores da cidade, a maioria dos quais vive na periferia. Quem passa pelas imediações da galeria Olido, no centro, pode vê-los trocando "autógrafos" escritos no estilo próprio em papel A4, que são arquivados em pastas.

O preço da pichação já distingue o pichador do grafiteiro. Se os primeiros compram sprays vencidos em lojas de tintas, sempre nacionais, os grandes grafiteiros só trabalham com latinhas importadas. As melhores são da marca Montana, espanholas ou holandesas, de R$ 13 a R$ 20 a unidade. Há trabalhos que usam algumas centenas de latinhas.

"O grafite formou uma panela", afirma pichador

DA REPORTAGEM LOCAL

O pichador F. participou do ataque à Faculdade de Belas Artes, à Bienal e aos painéis dos grafiteiros. Ele defendeu que o chamado "grafite bomb", o ilegal, seja preservado. Abaixo, trechos da entrevista:
"O pichador é marginal. O problema é que o grafite formou uma panela e excluiu todos os demais. O sucesso, inclusive internacional, que o pessoal do grafite obteve subiu à cabeça deles."

"É necessário distinguir arte de decoração. O nosso ataque ao grafite vendido, conformado e comercial não tem nada de pessoal. Estamos apenas reafirmando aquilo que estava na origem mesmo da pichação, ainda nos anos 60: O "pixo" é anarquia e resistência contra todas as formas de poder que encontrar pela frente."
"Nós não temos nada contra o grafite como forma de expressão artística. Por isso, você nunca verá um dos nossos atacando o grafite ilegal, que é o grafite que mantém o espírito marginal."

"Mas isso é completamente diferente dos grafites pintados sob patrocínio da prefeitura ou de empresas. Quem quiser a arte imutável e inatingível, que vá ao museu. O "pixo" reflete a perversidade da metrópole e é perverso com ela." (LC e AC)


"Ataque é coisa de gente ressentida", diz grafiteiro


DA REPORTAGEM LOCAL

"Nunca" atribuiu ao ressentimento os ataques a suas obras, neste fim de semana. Abaixo, trechos da entrevista:
"Foi uma atitude impensada, a desses caras [os pichadores]. Coisa de ignorante. Quando eu comecei a fazer grafite, ainda morava em Itaquera. Eu nunca fiz faculdade. Só estudei em escola pública. Mas não sou ignorante e acho que só é ignorante quem quer. Tem informação à vontade, tem a internet."

"É um absurdo que, em um país com tão poucas oportunidades de acesso à arte, esses caras tenham destruído a possibilidade de um garoto da periferia ver um painel artístico. Eles estão prejudicando a quem? Certamente não é a quem pode comprar arte, viajar e freqüentar museus."

"Isso não é coisa do movimento [dos pichadores] como um todo. É claro que sempre teve pichador que não gosta de grafiteiro, e vice-versa. Mas eu não sou assim. Eu sempre respeitei a pichação até porque comecei como pichador em Itaquera. Depois, fiz trabalho decorativo de portas de aço. Até que cheguei aqui. Foi um longo percurso, sempre dentro do respeito." (LC e AC)

domingo, 19 de outubro de 2008

copiar+colar transforma a cadeia cultural



O que será que Beto Metralha, produtor musical da cena do tecnobrega, em Belém do Pará, tem em comum com Dan Glickman, presidente da Motion Picture Association of America (MPAA), representante dos seis maiores estúdios de Hollywood? Os dois estão no centro da transformação radical que o universo da produção cultural do mundo está passando (cada um de um lado um pouco diferente). E parece até loucura, mas o modelo de negócio do brasileiro é muito mais moderno que o do seu colega americano. O documentário "Good Copy, Bad Copy" mostra como e porquê esta aparente contradição é (e muito) possível.

Você pode baixar o vídeo no Pirate Bay ou assisti-lo no seu próprio site.