terça-feira, 28 de outubro de 2008

pichadores paulistas declaram guerra contra grafite institucional

Depois de atacarem uma faculdade, uma galeria de arte e, neste domingo, o andar vazio da Bienal de São Paulo (como já haviam prometido), pichadores paulistas agora não estão perdoando os grafites feitos sob encomenda ou sob tutela de instituições. Veja a matéria que saiu na Folha de S. Paulo de hoje:

Pichadores agora destroem marcos do grafite em São Paulo

Eles dizem protestar contra "caráter comercial" dos grafiteiros, para quem iniciativa é obra de uma minoria jovem e ressentida

Foram danificados painéis da imigração japonesa na avenida Paulista, em beco na Vila Madalena e no centro da cidade


RUA 24 DE MAIO
Pichador vandaliza desenho produzido por grafiteiros; pichadores contestam caráter comercial dos grafites em SP


LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL
ADRIANO CHOQUE
REPÓRTER-FOTOGRÁFICO

O "pixo" paulistano, famoso pela tipografia pontuda, de difícil decifração, declarou guerra aos grafiteiros e destruiu no último fim de semana três dos mais importantes marcos do grafite da cidade: o imenso painel em homenagem à imigração japonesa, no "buraco" da avenida Paulista; um beco da Vila Madalena; e um painel do Sesc, na rua 24 de maio, centro.

"Viva a Pixação", o símbolo do anarquismo e referências ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche, como "Demasiado Humano" e "Além do Bem e do Mal", foram escritos sobre os trabalhos dos grafiteiros.

"Quisemos protestar contra o caráter comercial e capitalista que tomou conta do grafite", disse um membro do grupo à Folha. Ele também esteve no ataque ao andar vazio da Bienal, domingo, quando cerca de 40 jovens picharam paredes e vidros e trocaram socos e pontapés com seguranças no prédio que foi projetado por Oscar Niemeyer e é tombado pelo patrimônio histórico.


"Atropelo"

Os ataques romperam o acordo que sempre existiu entre pichadores e grafiteiros: o de que um não "atropela" o outro, e vice-versa. "Atropelar", neste caso, significa pintar por cima. "O "pixo" é anarquia, é contestação, é confronto. Estamos em busca do confronto artístico, em contraposição ao conforto da arte decorativa e das galerias", defendeu um.

"Para mim, isso é ressentimento mal resolvido. Coisa de pessoas ignorantes que acabam privando a população pobre do acesso à arte de rua, que está lá, exposta gratuitamente", respondeu um dos mais prestigiados grafiteiros nacionais, que se identifica como "Nunca", 25.

A briga foi ensaiada. No dia 6 de setembro, um grupo de pichadores atacou a Galeria Choque Cultural, uma dentre meia dúzia na cidade de São Paulo que se especializou em trabalhos de grafiteiros.

"O grafite virou mainstream total. É arte domesticada, feita para decorar ambientes que querem se passar por modernos", disse um pichador.

Para ele, os muros de bairros como a Vila Madalena (zona oeste) tornaram-se um show-room a céu aberto das galerias. "Eles grafitam nos muros e os playboys vão às galerias arrematar os trabalhos para levar pras suas casas ou escritórios."
Segundo "Nunca", a ação do último fim de semana é obra de uma minoria, gente muito jovem, que desconhece a história comum de pichadores e grafiteiros. "Eu mesmo comecei como pichador, lá em Itaquera [bairro da zona leste], há 12 ou 13 anos. Sempre houve respeito entre pichadores e grafiteiros. A ignorância é que atrapalha."


Latinhas holandesas

"Nunca" é autor de uma série de grafites sobre índios. Expôs na galeria londrina Tate Modern, com a dupla estrelada da "street art" nacional: Os Gêmeos (nome artístico dos irmãos Otavio e Gustavo Pandolfo, também de São Paulo).
"Nunca" tem trabalhos espalhados por toda a cidade. Vive disso. Saiu de Itaquera e hoje mora no Cambuci (centro). "Mas já pintei muito portão de aço, já fiz muita coisa decorativa", diz.

Este é um problema. "A pichação perdeu seu espaço, porque todo dono de muro ou portão, para evitar o "pixo", acabou contratando um grafiteiro, certo de que assim evitaria nossa ação. E eles se venderam."

Dados da Prefeitura de São Paulo calculam em 5.000 o número de pichadores da cidade, a maioria dos quais vive na periferia. Quem passa pelas imediações da galeria Olido, no centro, pode vê-los trocando "autógrafos" escritos no estilo próprio em papel A4, que são arquivados em pastas.

O preço da pichação já distingue o pichador do grafiteiro. Se os primeiros compram sprays vencidos em lojas de tintas, sempre nacionais, os grandes grafiteiros só trabalham com latinhas importadas. As melhores são da marca Montana, espanholas ou holandesas, de R$ 13 a R$ 20 a unidade. Há trabalhos que usam algumas centenas de latinhas.

"O grafite formou uma panela", afirma pichador

DA REPORTAGEM LOCAL

O pichador F. participou do ataque à Faculdade de Belas Artes, à Bienal e aos painéis dos grafiteiros. Ele defendeu que o chamado "grafite bomb", o ilegal, seja preservado. Abaixo, trechos da entrevista:
"O pichador é marginal. O problema é que o grafite formou uma panela e excluiu todos os demais. O sucesso, inclusive internacional, que o pessoal do grafite obteve subiu à cabeça deles."

"É necessário distinguir arte de decoração. O nosso ataque ao grafite vendido, conformado e comercial não tem nada de pessoal. Estamos apenas reafirmando aquilo que estava na origem mesmo da pichação, ainda nos anos 60: O "pixo" é anarquia e resistência contra todas as formas de poder que encontrar pela frente."
"Nós não temos nada contra o grafite como forma de expressão artística. Por isso, você nunca verá um dos nossos atacando o grafite ilegal, que é o grafite que mantém o espírito marginal."

"Mas isso é completamente diferente dos grafites pintados sob patrocínio da prefeitura ou de empresas. Quem quiser a arte imutável e inatingível, que vá ao museu. O "pixo" reflete a perversidade da metrópole e é perverso com ela." (LC e AC)


"Ataque é coisa de gente ressentida", diz grafiteiro


DA REPORTAGEM LOCAL

"Nunca" atribuiu ao ressentimento os ataques a suas obras, neste fim de semana. Abaixo, trechos da entrevista:
"Foi uma atitude impensada, a desses caras [os pichadores]. Coisa de ignorante. Quando eu comecei a fazer grafite, ainda morava em Itaquera. Eu nunca fiz faculdade. Só estudei em escola pública. Mas não sou ignorante e acho que só é ignorante quem quer. Tem informação à vontade, tem a internet."

"É um absurdo que, em um país com tão poucas oportunidades de acesso à arte, esses caras tenham destruído a possibilidade de um garoto da periferia ver um painel artístico. Eles estão prejudicando a quem? Certamente não é a quem pode comprar arte, viajar e freqüentar museus."

"Isso não é coisa do movimento [dos pichadores] como um todo. É claro que sempre teve pichador que não gosta de grafiteiro, e vice-versa. Mas eu não sou assim. Eu sempre respeitei a pichação até porque comecei como pichador em Itaquera. Depois, fiz trabalho decorativo de portas de aço. Até que cheguei aqui. Foi um longo percurso, sempre dentro do respeito." (LC e AC)

domingo, 19 de outubro de 2008

copiar+colar transforma a cadeia cultural



O que será que Beto Metralha, produtor musical da cena do tecnobrega, em Belém do Pará, tem em comum com Dan Glickman, presidente da Motion Picture Association of America (MPAA), representante dos seis maiores estúdios de Hollywood? Os dois estão no centro da transformação radical que o universo da produção cultural do mundo está passando (cada um de um lado um pouco diferente). E parece até loucura, mas o modelo de negócio do brasileiro é muito mais moderno que o do seu colega americano. O documentário "Good Copy, Bad Copy" mostra como e porquê esta aparente contradição é (e muito) possível.

Você pode baixar o vídeo no Pirate Bay ou assisti-lo no seu próprio site.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

mídia tática na semana da arquitetura



Amanhã, quinta-feira, vai rolar na faculdade de Arquitetura da UFMG a palestra "Mídia Tática: Arte e Expressão na Cidade", dentro da programação da Semana de Arquitetura. Eu e o João Perdigão vamos conversar sobre como o espaço público da cidade, a rua, é um espaço vivo e livre, cheio de possibilidades a serem exploradas: uma delas é o uso do território urbano como mídia. Não é só pela internet, televisão, jornal e afins que a informação e a expressividade podem circular. Que tal usarmos a rua, o nosso habitat natural por excelência (e não apenas um espaço de circulação), como a nossa mídia? Quem vive a rua, de verdade, sabe que do que eu tô falando. Então, aparece lá, dá o seu palpite. Se quiser, pode nos dizer que estamos viajando e que esta conversa não tem nada a ver. Vamos adorar.

Mídia Tática: Arte e Expressão na Cidade
Quinta, 16 de outubro, às 18h.
D.A. da Escola de Arquitetura da UFMG
Rua Paraíba, 697.
Funcionários